O Sol rubro se põe no horizonte,
A bahia ainda é refletida pela insolação,
Passaros brancos e rechonchudos manobram no ar,
As ondas e as espumas formam um dueto,
A brisa do mar abraça a mim e a minha companheira,
Somos todos cabelos desgrenhados e toalhas revoltas.
A minha companheira lê uma notícia da revista de novelas,
Solicita, estende a sua mão morena e delicada a mim,
Sou recíproco, somos todos reciprocidade e afeto,
Um caranguejo amarelo se aproxima de mim,
Ele tem braços disformes, um másculo e um raquítico,
Cilíndricos são os seus olhos a me fitar,
Pareciam querer dizer algo a esse poeta,
Com a sua boca esquisita e espumante.
A Natureza pretendia nos cobrar algum dízimo,
Pela beleza que contemplavamos naquela praia,
A minha amada paga-a com um sorriso branco,
Então, o caranguejo contempla-a com os seus olhos-antenas,
Baixa os seus braços, dá as costas e vai embora.
Quando os 33 monstros profanarem a jovem,
Profanando o corpo, templo sagrado da alma,
Tão íntimo, delicado e frágil,
Ofendendo o povo brasileiro,
Ultrajando a própria humanidade,
E o Cérbero, em pessoa, desejar
furiosamente abocanha-los
E leva-los para as portas do Inferno,
Quando os 33 selvagens se apropriarem
do corpo da jovem, maldosamente,
Por puro prazer, por puro machismo,
Covardemente, perversamente,
E um ciclope quiser abate-los
a um só golpe, definitivamente,
Quando os 33 bárbaros invadirem
a alma de uma jovem, heregemente,
Saciando-se em sua promiscuidade,
Egoísticamente, insanamente,
E o anjo mal quiser levá-los
para o pior dos Infernos,
Não olhe, não lamente:
Dê-lhes às costas.
Outrora, eras o consolo de um grande navio,
Quantos portos já contemplaste no mundo,
Quantas décadas serviste passivamente,
Agora estás aí, abandonada, enferrujada,
Escurecida com a maresia e com as chuvas,
O teu reduto agora são as areias da praia,
Habitas próxima à linha d'água, na maré baixa,
Às vezes, és castigada perante as ondas,
Mas estás aí, em pé, tal qual um guarda,
Que toma conta da natureza circundante,
Como seria bom se tivéssemos uma âncora,
Para nos segurar nos momentos turbulentos,
Impedindo-nos de cometer os erros da vida,
Contudo, somos todos barcos abandonados ao vento,
Vivemos à deriva dos nossos impulsos e sentimentos,
E nem todo mundo possui uma âncora chamada:
Prudência.
Não chores, pedra, pois a aurora vem em breve,
Não lamentes a estupidez do ser humano,
Não te queixes da corrupção nas esferas do governo,
Nem tampouco resmungues acerca das mentiras deles,
Afinal, és melhor do que todos eles, não tens pecado,
Na tua fronte, nasce uma flor amarela,
Rodeada por uma coroa de Lírios da Paz,
E vestes uma túnica repleta de flores de Alamanda.
E logo em breve serás o Rei Pedra.
Desse teu recato rudimentar,
Transparece o teu corpo pujante,
Fartura de pernas, seios, costas,
Abarca-te a sensualidade
Desatino dos homens
Inaudito cenário íntimo
Descortinas o teu corpo,
Reduto de fogo e suor,
Antro de morenidade,
Berço de lavanda,
Descortinas o teu eu,
Como as cortinas de um teatro,
Tão vermelhas e tão misteriosas,
És um palco feito de carne,
Paraíso tangível de prazer,
Mulher descortinada
Tão escarpada e tão curvilínea
Assemelhando-se a uma cordilheira
Que quer se tocada pela brisa e
Pelas ondas do mar,
Descortinas o teu desejo
De ser mar, de ser montanha,
De ser mulher descortinada.
Somos todos arquétipos e paradoxos,
Eventualmente, somos poços de padrões,
Vitimados pelas gerações anteriores,
Mas o meu Sol não é igual ao teu Sol,
E a minha luz é distinta da tua luz,
Apesar de termos o mesmo Lanterneiro,
Que é o Deus de todas as religiões,
Contudo, ocasionalmente, formamos cidades,
De pessoas, de sonhos e de momentos.
Há algum tempo, não muito,
Para a minha companheira
E ela, prontamente, emocionou-se,
Para a minha mãe,
E ela também caiu em prantos,
Indago-me se sou porta-voz
Da tristeza ou da alegria
Quando exponho o dom da poesia.
A lágrima é o curioso fruto tangível
Que se apropria das almas sensíveis,
Tal qual a brisa diante do poeta,
Que o envolve sem pedir licença
A cada verso pode nascer uma lágrima
E porventura será elemento da beleza.
E todo poeta é pescador do que é belo,
Que é pescado no mar da imaginação
E a rede do poeta abarca o mundo
Palpável e impalpável, visível e invisível,
Trago comigo a minha rede de versos,
Que me acompanha por todos os cantos,
Pois não há hora nem lugar
Para se pescar a beleza.